Reflexão do professor Luis Fernando Hering Coelho, que apóia outro colega – Allan Oliveira – e sua opinião sobre a Greve Geral, entre outras coisas.

“Está rolando um convite de greve geral no facebook.

Não pretendo participar, por uma razão simples: qual é a pauta? Enquanto uma pauta não estiver bem definida, não participo de nada.

“Contra a corrupção” não pode ser pauta de greve geral. É muito vago. Vai acabar com a corrupção como? Qual é a proposta concreta?

Greve é uma ferramenta para pautas específicas. Faço greve por um piso salarial digno, nacional, para professores do ensino fundamental (eu sou professor universitário e sei que as condições de trabalho dos meus colegas de redes municipal de ensino são desumanas). Faço greve pela revogação do projeto de “cura gay”. Faço greve por um valor maior do salário mínimo. Enfim, faço greve por propostas concretas e específicas. Não por questões vagas.

Dizer “Fora Dilma”? Sem comentários. E olhem que sou crítico ao governo dela. Sou antropólogo e acho seu governo, até agora, uma catástrofe para as sociedades indígenas brasileiras. Mas daí a dizer “Fora Dilma”, vai uma distância enorme.

Achei ótimo que a população tenha ocupado as ruas nos últimos dias. Foi um sinal de vitalidade social importante, ainda mais no Brasil, um país onde a ideia de esfera pública sempre foi marcada seja por uma apropriação de castas (a esfera pública para meia dúzia, como ocorre nos estádios de futebol atualmente). No entanto, as manifestações chegaram num ponto que é bom separar o joio do trigo.

Eu entendo, e concordo, que os partidos políticos no Brasil há muito deixaram, na sua totalidade, de cumprir sua função. Isto, no entanto, não pode servir para uma negação da representação partidária no jogo político. A razão é simples: a ausência de canais de representatividade é o primeiro e principal passo para uma ditadura – e ninguém inventou canais melhores do que partidos políticos. Democracia, pessoal, é com eles.

Alguém pode dizer: mas não precisa do partido para se organizar. Não mesmo. Há trocentas organizações não partidárias que tem pautas muito específicas e que, há anos, militam por elas: associação comunitárias em favelas cariocas, ONG’s, o Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra, o Movimento Nacional dos Sem-Teto, o próprio Movimento pelo Passe Livre, igrejas. São organização apartidárias que tem canais de diálogo com os partidos. Mas elas não são partidos. Isso é uma coisa. Outra, COMPLETAMENTE DIFERENTE, é a gerência do Estado. Nenhum desses movimentos é capaz de gerir o Estado, porque a gerência do Estado passa por negociações e mediações. Daí os partidos. Lamento informá-los: ruim com eles, muito pior sem eles. Quem viveu no regime militar (Brasil 64, Argentina 76, Chile 73 e outras tranqueiras) ou sob uma ditadura de partido único (China, Rússia e outras coisas esquisitas) pode falar disso melhor que eu.

Então, de saída, me parece infantil qualquer grita “abaixo os partidos”, quando a grita, a meu ver, deveria ser “Partidos: mexam-se. Renovem-se”. Sejam eles de direita, sejam eles de esquerda.

É curioso que muitas pessoas que estão nesta de “diga não aos partidos” estejam usando a máscara do Guy Fawkes – que virou, com o filme “V de Vingança” um símbolo de protestos pelo mundo inteiro. Acho o filme ótimo e ele nos convida a pensar o totalitarismo. O filme é uma ode contra o totalitarismo. Porém, isto seria ótimo no Brasil de 1977 (para lembrar um ano de grande repressão e que é pouco comentada pelos historiadores – quem estudou em São Paulo, nesta época, sabe do que estou falando), mas não funciona no Brasil de 2013. É isso: cabe agora um pouquinho mais de aprofundamento para não botar no mesmo balaio coisas tão diferentes (o Brasil de 77 e o de 2013). Esse papo de “é tudo igual” é conversa de botequim: pode ser simpática, mas é irresponsável (por isso que eu gosto de botequins… lá dá para gente ser irresponsável…).

E, por fim, reparem que a frase que chama a greve é de um autoritarismo absurdo: “quem manda neste país”. Alguém manda? Precisa que alguém mande? O presidente não manda. Aliás, é bom que não mande. Uma esfera pública precisa de pessoas que passem o tempo todo negociando consensos, em suma, que faça política. Eu não quero alguém que mande. Já tive um assim, chamado pai. Aliás, como diria o povo daquela seita esquisitíssima que se reunia na Bergtrasse, em Viena – conhecidos nas bocadas como freudianos – é bom superar este desejo de que “um pai tem que mandar…”. Talvez seja isto: quem manda ou pensa nestes termos, quer poder. Precisa do pai. Procure um (ou procure o povo da Bergtrasse), mas me deixe fora desta. Ao invés de poder (quem manda) eu prefiro política.

“V de Vingança” é um filme contra o poder (esse ideal platônico) e não contra a política. Por isso, uma chamada “Vamos mostrar quem manda nesse país” só me diz que muita gente ainda não entendeu o que é política. Tá na hora de pensar um pouco sobre isto.

Mais do que nunca precisamos desta palavra: política. A polis depende dela.”

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